LAB entrevista: Mário Cappi

Posted on Julho 15, 2010

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Por Victor de Almeida

Foto por Lu

Foto por Lu

Mário Cappi é guitarrista do Hurtmold. A banda já lançou quatro álbuns e tem 12 anos de estrada rodando boa parte do Brasil e do mundo com um som que mistura rock, jazz e música brasileira. Como se não bastasse os serviços prestados ao rock instrumental nacional, o Hurtmold acompanha o hermano Marcelo Camelo e seus integrantes ainda arrumam tempo para outros projetos paralelos e trabalhos solo.

Em 2010, Mário Cappi lançou o seu. Sob a alcunha de MDM, o guitarrista colocou em prática ideias que não seriam aproveitadas pela sua banda principal e gravou um disco experimentando possibilidades de uma guitarra e um pedal de loop. Mas o trabalha não é limitado a isso. No disco, os parceiros de Hurtmold e amigos de outras bandas também imprimiram suas marcas no trabalho.

O MDM aparece em um cenário crescente da música experimental brasileira, música que mostra um pouco do caos sonoro das grandes metrópoles. E em São Paulo não seria diferente. Se até então, o experimentalismo brasileiro era bem vindo em países da Europa, o público nacional começa a descobrir as melodias e canções do novo século.

Logo após o lançamento do MDM e no início da divulgação do disco, Mário Cappi falou conosco sobre o novo projeto, o Hurtmold, novos planos e experimentações.

LAB: O Hurtmold é uma das bandas mais bem sucedidas do circuito independente brasileiro. O que levou você a trilhar seus próprios caminhos? Por que você decidiu trabalhar em seu próprio material? Quando foi que essa vontade apareceu?

MÁRIO CAPPI: Então, quanto ao lance de ter um trabalho solo, eu acho que tem a ver com a necessidade de continuar uma trilha que às vezes tem que ser seguida paralelamente ao caminho que você já seguia. O Hurtmold é a banda que eu toco há 12 anos, é o meu “caminho principal”, eu diria, porém  sempre fiz músicas que independentemente de entrar ou não para o repertório do Hurtmold, faziam e fazem parte da minha vida como músico.

Acho natural que, às vezes, o trabalho solo se realize de uma maneira quase despercebida. Ele já existia, estava ali convivendo com as outras ideias e momentos musicais nos quais eu vivia. Faltava apenas colocá-lo “em ordem”.

Eu estava fazendo algumas músicas, às vezes algumas ideias de arranjos pro Hurtmold, outras vezes não, e uma hora me dei conta que tinha material suficiente pra lançar um trabalho solo, com músicas que não entrariam num disco do Hurtmold, mas teriam um lugar próprio pra contar uma história diferente. Um meandro em relação ao caminho original, que seria o Hurtmold.

A banda não é apenas um grupo e, sim, quase uma instituição musical. Vários integrantes tem trabalho solo para além da banda, exemplo o Bodes & Elefantes, M. Takara, São Paulo Underground, Trio Esmerio, Chankas, dentre outros projetos. Mas o curioso é que vocês sempre acabam trabalhando juntos. Como é a relação de vocês nesse aspecto? Por que isto acontece?

Acontece porque, antes de tudo, somos amigos de longa data. Temos admiração e respeito pelo trabalho um do outro e somos próximos musicalmente (mesmo que os trabalhos solos dos integrantes sejam muito diferentes). Vou explicar melhor: se eu quero uma bateria numa música minha, é natural eu chamar o Mauricio, ou o Marcão pra tocar um baixo, porque eu já conheço o estilo deles e sei que, além de tocarem o que eu precisar nas músicas, eles vão dar o toque pessoal também. Vão imprimir a assinatura deles ali. Então quando você ouve certas faixas no meu disco, percebe de cara que é o Takara na bateria ou o Marcos no baixo, ou o Chankas numa das guitarras.

Mas além deles eu chamei outros amigos pra tocar no disco, como o Flavinho do Forgotten Boys e o Fernando do Elma, por exemplo, que são caras que eu acho que tem um estilo único também, e que interpretariam minhas ideias de maneira diferente do pessoal  do Hurtmold.

Foto por Lu

Foto por Lu

Sobre o seu trabalho como MDM… Como foi o processo de gravação do seu disco? Ele foi gravado com um pedal de looping e uma secretaria eletrônica da sua mãe? O seu disco é basicamente montado em cima de faixas de guitarras, certo? São perceptíveis várias camadas de guitarras gravadas uma por cima das outras. É isso mesmo? Como funcionou a composição do disco?

Pois é… Tenho que deixar isso um pouco mais claro.

Não usei uma secretária eletrônica pra gravar meu disco, isso foi há muito tempo, outra época, quando eu não tinha nem o pedal de loop pra gravar as minhas ideias. Nessa época, não havia nenhum esboço sequer das músicas que comporiam o disco.

Usei o pedal loopstation para algumas faixas, pois eu não tinha um programa num computador, tipo um Protools, Cubase, coisas do tipo. Peguei algumas ideias parcialmente fechadas sobre arranjos de guitarra e gravei nesse pedal de loop.

Então fui à casa do Chankas, passei pro Logic Pro e levei as ideias para um estúdio para gravar as baterias, e baixos. Isso em apenas três faixas.

Nas outras eu já tinha instalado o Cubase no meu computador e já gravava, guitarras, violões, vocais, teclados, percussão, flauta, trompete, tudo em casa.

Partindo daí, levava o lap pro estúdio onde gravava a bateria. Os baixos e marimbas foram gravados na casa dos amigos, eu levava o computador na casa deles e eles gravavam.

A composição foi lenta em muitas vezes e nem tanto em outras. Eu já tinha algumas músicas há algum tempo, mas não havia fechado as ideias pra dizer “isso está pronto” de certa forma isso retardou o processo todo.

Uma falta de ideias para terminar a ideia, saca?

Mas por outro lado, houve momentos em que em uma única tarde eu fiz uma música inteira, com letras e tudo. Eu gostei bastante desse processo todo.

http://www.youtube.com/v/mcoFzlFY8nI&hl=pt_BR&fs=1

Durante a gravação do disco você teve colaboração de vários parceiros de Hurtmold, além de Fernando Seixlack, Richard Ribeiro, Flávio Cavichioli e o hermano Marcelo Camelo, entre outros tantos. Como esses parceiros trabalharam na construção do disco? O MDM é mais um trabalho solo ou coletivo?

Como disse antes, além dos parceiros do Hurtmold, eu quis chamar outros amigos músicos que eu admiro, que  tem estilo e dariam outra leitura às minhas ideias. Trariam pras músicas outra interpretação que não fossem as dos caras com quem já toco há tanto tempo. Eu quis essa diferenciação, porque não imaginava como o Fernando do Elma, o Richard ou o Marcelo Camelo interpretariam músicas minhas.

Foi uma curiosidade. E acho que funcionou legal… O MDM é um trabalho solo. Todas as músicas e concepções são minhas. Mas eu acredito muito que quando você toca com alguém que admira e essa pessoa se sente livre pra criar com você e não pra você, o seu trabalho fica enriquecido por isso. Há uma complacência, um mutualismo.

Músicas como a Bandit, por exemplo, ficaram com a cara do Mau e do Marcão também, pois eles deixaram nela de uma maneira muito forte, seus respectivos estilos. Isso aconteceu  em outras músicas também com os outros caras que participaram.

A ideia de coletivo eu acho um pouco diferente, porque envolve mais a parte de todos estarem compondo juntos. Outras infinidades e afinidades. O Hurtmold se encaixa no conceito da coletividade.

Foto por Samuel Esteves

Foto por Samuel Esteves

Além de você, a banda que faz os shows ao vivo é completada por Fernando Cappi, Richard Ribeiro e André Calvente. Como funcionam os shows? O que podemos esperar de uma apresentação do MDM?

O MDM se apresentou agora dia 05 de junho no MIS em São Paulo com essa formação que você citou acima. O Chankas (que também tem um disco solo e toca guitarra no Hurtmold) toca guitarra, canta, dispara samplers, toca marimba e flauta.

O Brian (André Calvente) é um amigo meu de muitos anos, da época do colégio e toca baixo, o Richard (toca no Porto e no SP Underground) toca bateria, marimba e alguns instrumentos de percussão. Eu toco guitarra, flauta, trompete e canto.

Nosso show foi um pouco diferente do disco. Deixamos algumas de fora pra colocar umas coisas novas. Foi bem baseado em canções, é menos sujo do que o disco. O show tem mais momentos tranqüilos, mais vocais. Mas é pesado também, e tem momentos com aberturas pra improvisos e espontaneidades.

Acho que quem gostou do disco, vai gostar do show também. Nós estamos gostando.

Sobre o trabalho do MDM, é possível dizer que hoje existe uma abertura maior por parte do público e dos festivais ou ainda existe muito estranhamento com essas iniciativas mais experimentais? O que causa/causou mais estranhamento: o Hurtmold no começo, quando começou a fazer músicas sem vocais, ou o MDM hoje?

Sim, acho que hoje existe uma abertura maior em vários sentidos. Não só pelo estilo musical, mas por toda uma aceitação estética em si. Algo que já existe há muito na música, mas ainda era um pouco remoto por aqui. Acho também que o Hurtmold já abriu algumas portas que o MDM não terá que abrir, saca?

Aproveitou essa abertura e segue agora o seu caminho. Muitas pessoas que foram no show do MDM são pessoas que eu conheço de shows do Hurtmold. Gente que curte o som e os shows do Hurtmold e também se interessa pelos trabalhos solos do M. Takara, Bodes & Elefantes e agora o MDM.

Fico feliz com isso. É sempre legal ver que tem gente se interessando pelo seu trampo, sabendo observar as diferenças entre todos esses trabalhos. Isso dá longevidade pra tudo.

Foto por Samuel Esteves

Foto por Samuel Esteves

Antes do Hurtmold, você circulou e tocou no circuito do Hardcore em São Paulo. Hoje em dia, você faz (tanto com o Hurtmold, como o MDM) um som muito mais experimental e subversivo, musicalmente falando. Você vê algum ponto em comum entre esses dois momentos da sua produção?

Eu acredito no experimentalismo como algo literal. Todas as minhas tentativas musicais, bandas, desenhos, quadros, são de certa forma experimentais. Estão pondo pra fora resultados de experiências realizadas através de instrumentos musicais ou um lápis, um pincel, etc.

Não vejo só como um conceito… Dessa forma, creio que minha criação musical enraizada no punk rock, desde sempre foi experimental. Não só eu, como a maioria dos outros integrantes do Hurtmold tivemos nossas bases de formação musical através do punk rock.

Não foi só esse estilo fundamental na minha personalidade pra música, mas posso dizer que foi um dos mais libertadores, o que me fez ter maior impulso. O estilo que soltou as rédeas. É um pouco parecido com o samba e com o jazz no quesito desafio. São estilos de música que não passam despercebidos. Quando são feitos por músicos relevantes, são desafiadores.

Mas na casa dos meus pais quendo erámos crianças, eu e o Chankas (na época apenas Fernando Cappi) meus pais ouviam muita MPB, Blues, Beatles. Meu pai é um grande fã de Bues e Black Sabbath. Ele me mostrou isso e eu fui muito influenciado por ele e pelo Tony Iommi. Minha mãe ouvia muita MPB. Posso dizer que tive uma formação eclética e isso se reflete no que faço no Hurtmold e no MDM.

Sem contar com o MDM que lançou disco recentemente, como andam seus outros projetos? O Hurtmold tem previsão para lançar outro material? E com o Marcelo Camelo? Os trabalhos voltaram depois do fim da turnê do disco “Sou/Nós”?

O Hurtmold voltou a ensaiar e conseqüentemente a compor. Estamos voltando a um ritmo legal de ensaios e isso vai fazer que as coisas apareçam naturalmente, como sempre foi. Não gosto de dar previsões para próximos discos e lançamentos, mas gostaria e acho possível que saia algo novo do Hurtmold esse ano.

Quanto ao Marcelo, é um pouco mais difícil falar porque esse ritmo depende inteiramente dele. Gravamos material para o disco novo dele e a turnê vai começar assim que todos os detalhes estiverem ajeitados.

Após o show de lançamento do MDM, existe algum planejamento de shows? Alguma ideia para uma circulação além de São Paulo?

Estamos procurando alguns lugares pra fazer shows aqui em São Paulo. De certo ainda, temos pouca coisa. Mas tudo no seu ritmo… Temos alguns shows marcados na capital e tentaremos expandir pro interior paulista. Gostaria muito de viajar pelo Brasil com o MDM. A banda é nova e estamos com fome de bola, querendo tocar, compondo material novo. Esperamos que esse disco chegue na mão das pessoas, pra recebermos os convites e aprontarmos nossas malas.

http://www.youtube.com/v/gGRsY-7GwaA&hl=pt_BR&fs=1

Para ouvir o MDM: http://www.myspace.com/mdmsp
Para comprar o disco: http://www.submarinerecords.net/

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