LAB entrevista: Guilherme Granado

Posted on Julho 26, 2010

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Por Victor de Almeida

Por Paulo Borgia

Por Paulo Borgia

O som do Bodes & Elefantes é uma mistura caótica com a cara de São Paulo. Ritmos mesclados e sobrepostos realçados com um pouco de melodia. Quem ouve pela primeira vez, pode estranhar. Ouvir os dois discos do projeto de Guilherme Granado é sempre um exercício de descoberta.

Descoberta que o próprio Granado vem fazendo ao longo dos últimos anos. Desde os tempos de baixo na banda de hardcore Againe até a experimentação extremada do Bodes & Elefantes e São Paulo Underground, passando pelos mil instrumentos que toca com o Hurtmold.

O fato é que depois dos últimos lançamentos do Hurtmold (Hurtmold, 2007), São Paulo Underground (The principle of intrusive relationship, 2008) e Bodes & Elefantes (Behold the ice goat, 2010), a música experimental brasileira recebe um pouco de ar fresco e apresenta novos rumos a serem explorados.

No ano passado, o São Paulo Underground se apresentou no festival pernambucano No Ar: Coquetel Molotov, abrindo o show para Lô Borges e Milton Nascimento. Para quem esperava as belas canções do Clube da Esquina, foi uma surpresa ver a apresentação do quarteto e dos “barulhos” de Granado.

Após o lançamento do novo disco do Bodes & Elefantes, Guilherme Granado topou conversar conosco sobre as suas vivências com a música, experimentações sonoras, Hurtmold e a relação entre som e skate.

LAB: Para começar, você toca com o Hurtmold, São Paulo Underground e, há um tempo, se dedica ao seu trabalho solo. O Bodes & Elefantes surgiu de uma necessidade que você tinha de colocar um trabalho solo para fora ou por ideias que não se encaixavam nos outros projetos? Como foi esse processo inicial da montagem do Bodes & Elefantes?

GUILHERME GRANADO: Não acho que vem de uma necessidade. É mais uma configuração e mais uma faceta do que eu faço. Nesse caso, a única pessoa pra quem eu respondo sou eu mesmo, para melhor e para pior.

As bandas que com quem eu trabalho, especificamente essas duas quem você citou são completamente e totalmente democráticas. Todos tem voz e peso igual nas decisões. No Bodes & Elefantes, eu só tenho eu mesmo como parâmetro.

O processo foi muito natural. Fui compondo e gravando as coisas em casa e chegou num ponto que em que eu achei que no meio da tonelada de material tinha um disco. Aí foi chegar ao denominador comum e deixar a cosia tomar vida própria.

Por Paulo Borgia

Por Paulo Borgia

O primeiro disco foi basicamente gravado no seu quarto, certo? De maneira geral, ele privilegiava mais o ritmo, com beats e levadas de bateria. O Behold the Ice Goat usa mais instrumentos para criação dos temas, além de que tem mais participações de outros músicos. Na sua opinião, qual é a mudança mais perceptível do primeiro disco para este mais novo?

O segundo foi todo gravado em casa também. A mudança maior é a minha vida e como eu vejo o mundo e respondo pra ele. Mudou também a tecnologia.

O primeiro disco foi feito num tascam de cassete de quatro canais. Nesse, eu usei o Pro Tools. No primeiro, o foco foi o ritmo mesmo e as texturas e também como todas as composições se relacionavam entre si. Nesse novo, o foco maior é a relação dos instrumentos e também as composições em si.

Estou mais seguro com compositor e como instrumentista. Hoje em dia, até para chamar outras pessoas para tocarem composições minhas.

As participações de músicos amigos e convidados no Behold the Ice Goat dão uma cara mais coletiva ao trabalho. Para você, quais foram os pontos positivos de chamar outras pessoas para gravar esse segundo trabalho? E qual a vantagem de ter gravado o primeiro disco praticamente sozinho?

São meus amigos, gente que eu admiro, que gravitam no meu mundo musical. Foi natural e rolou tranquilamente. Acho que traz cores e resoluções diferentes pras coisas que eu compus.

O primeiro foi um exercício completamente solitário. Até um pouco intenso demais. Mas era necessário e eu não descarto a possibilidade de fazer o mesmo outra vez.

E sobre as apresentações ao vivo. Pelo fato de suas composições terem sido resultados de algumas sessões de improviso ou criação livre, como é que rolam os shows? Existe, de certa forma, uma formatação baseada nos discos? Como foi que você chegou à formação do Bodes & Elefantes que conta hoje com M. Takara, R. Ribeiro e M. Gerez?

Eu estou muito feliz e empolgado com essa banda. Nós tocamos as composições, mas de uma maneira em que todos trazem suas ideias e estão livres pra fazerem o que acharem mais propicio dentro daquela música em qualquer momento.

São todos músicos que eu conheço e admiro muito. Amigos de longa data. A coisa é natural. Os shows tem sido intensos e delicados ao mesmo tempo, na minha opinião.

Em outra entrevista que fiz com o seu colega de banda Mário Cappi, ele falou sobre um crescimento da aceitação por parte do público desses projetos mais experimentais, inclusive apontando a importância do Hurtmold para a “abertura de portas”. Como você vê essa situação? Existe uma tendência de abertura para trabalhos como o do SP Underground, Bodes & Elefantes, MDM?

Nunca pensei realmente nisso. Nós fazemos essa parada há muito tempo e me parece natural que a coisa tenha uma aceitação maior de que quando começamos. Eu entendo o que o Marinho quis dizer.

Quando o Hurtmold começou as bandas não pareciam tão dispostas assim a seguir uma linha estética que não era tão baseada nos formatos da canção rock. Pelo menos não no nosso meio.

Hoje, existe até o termo “cena instrumental”, que, aliás, nunca achei que nos encaixássemos e acho reducionista e limitador. Mas nada foi intencional da nossa parte. Fizemos e ainda fazemos o que o nosso coração e nossos espíritos mandam e é assim que eu quero trabalhar sempre.

Por Samuel Esteves

Por Samuel Esteves

Posso estar enganado, em uma matéria que li sobre vocês, você disse que “setenta por cento da sua formação músical tem a ver com o skate”. Possivelmente, se tem a ver com o skate esteve vinculado ao Punk Rock ou ao Hardcore. Em outra entrevista, perguntado sobre alguns discos de cabeceira você citou nomes como John Coltrane e Miles Davis. Como foi a passagem da punk rock para o jazz? O que incitou você nesse percurso?

A época a que eu me referia no skate era uma época muito aberta. Ouvi de tudo, mesmo. Minha primeira exposição ao próprio Jazz foi através do skate.

Hoje está tudo mais segmentado. Mas nessa época (comecinho dos anos 90), se você quisesse ter uma cabeça aberta em relação à música o skate era o melhor meio pra isso.

Eu ainda escuto música dessa mesma maneira. Alias, nem consigo mais separar a coisa em estilos. É música, é som. Prefiro assim.

Todo mundo fala dos “mil instrumentos” que você toca. Mas como surgiu o interesse por eles? Como você se interessou por sintetizadores analógicos? Por instrumentos percussivos? Por programação eletrônica? E, o que pelos menos chama mais a minha atenção, o vibrafone? O jazz tem algo a ver com isso?

Acho que é essa curiosidade natural por sons de todo o tipo. Eu gosto de coisas que produzem som. De todo tipo. Acho legal essa relação lúdica com os instrumentos, de ir atrás e juntar o máximo de cores e possibilidades possíveis para se produzir sons.

O vibrafone te dá tantas possibilidades. Você tanto pode o fazer soar como sinos celestiais como pode o fazer soar como uma batida de caminhão. Gosto muito de tentar aprender as possibilidades desse instrumento.

O Jazz tem a ver com isso sim, mas a música minimalista também tem. A música popular também. Difícil eu precisar de onde veio o interesse.

http://www.youtube.com/v/3kCdj7_wkcg&hl=pt_BR&fs=1

Mudando um pouco de assunto, você e o Hurtmold tem contato com outros músicos e cenas musicais de outros países, como por exemplo, a nova cena de jazz de Chicago, de onde vem o R. Mazurek. Além disso, o Behold the Ice Goat saiu por um selo do Japão. Vocês costumam manter diálogo com músicos e pessoas envolvidas de outros países? Que lugares vocês tem uma boa aceitação?

Tenho uma relação de amizade e colaboração com bastante gente de Chicago. Os (The) Eternals, o Rob (Mazurek) e todos da Exploding Star Orchestra, com quem eu e o Mauricio tocamos.

Mais um monte de gente pelo mundo. É uma das grandes vantagens de se fazer o que eu faço da vida. Você conhece e pode colaborar com gente do mundo todo. Tenho sorte.

A aceitação é difícil de te dizer. Acho que as pessoas se identificam bastante com a gente aqui mesmo no brasil. Lá fora também rola, mas aqui, como é onde moramos e trabalhamos mais eu consigo ver mais isso. O São Paulo Underground teve ótimas experiências fora do Brasil. As pessoas parecem se identificar bastante com o que a gente faz.

Se não me engano, você já excursionou por países da Europa e pelos Estados Unidos. Existe uma aceitação maior para essa música experimental nesses lugares? Dizem que no Japão existe uma cena forte dedicada a esse tipo de música. Você conhece algo?

Acho que a aceitação é a mesma. A única diferença é que na Europa, por exemplo, ou no Canadá, existe um circuito de festivais que englobam uma música mais criativa e autoral.

Aqui a coisa é mais restrita. Mas eu sempre me admiro até onde a gente chega por aqui, principalmente com o Hurtmold.

Conheço algumas coisas japonesas mais atuais sim, mas nada me vem a cabeça agora.

Por Paulo Borgia

Por Paulo Borgia

E agora, depois do lançamento de Behold the Ice Goat? Como estão as previsões de shows? Alguma possibilidade de shows fora de São Paulo? E no Nordeste? Por três vezes você já participou do Coquetel Molotov, com o Hurtmold, Marcelo Camelo e SP Underground. Existe a possibilidade do Bodes & Elefantes passear por aqui ainda este ano?

Queremos tocar o máximo possível. Queremos tocar fora sim. Ir para o Nordeste seria lindo. Quem sabe a gente não se encontra por ai esse ano. Estamos abertos! É só chamar!

http://www.youtube.com/v/9E9wN871VMk&hl=pt_BR&fs=1

Para ouvir Bodes & Elefantes:
http://www.myspace.com/bodeseelefantes

Para comprar o disco (Behold the ice goat):
http://www.submarinerecords.net

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